Eu era criança quando meu irmão se formou em teologia. Mas lembro-me – e muito bem – do dia em que ele chegou em casa com um pedaço de papel, uma colagem fotocopiada que dizia: “o seminário … confere ao portador deste o título de bacharel em ciências ocultas e letras apagadas”.
Tudo bem que foi uma piada entre formandos – piada essa que, eu soube mais tarde, rendeu muitos problemas a seus autores -. Mas o fato é que aquele diploma deveria estar enfeitando um bocado de paredes hoje em dia.
Não são poucos os casos em que o diploma está longe de refletir aquilo que pretende certificar. Que o diga a Ordem dos Advogados do Brasil, testemunha inatacável de que o ensino universitário brasileiro está longe de habilitar pessoas ao exercício da advocacia: boa parte dos que prestam exame na Ordem são reprovados; muitos deles, em mais de uma tentativa. Contudo, insiste-se em que aquele pedaço de papel tem o condão de conferir ao seu portador autoridade para se pronunciar sobre os assuntos que, imagina-se, estudou.
Quem entrar no site do IBGE, na seção destinada aos adolescentes, verá, novamente, o malabarismo semântico em atuação. É que, a fim de apresentar suas retumbantes alvíssaras, aquele instituto define analfabeto funcional como a pessoa que possui menos de quatro anos de estudos completos.
O analfabetismo funcional não diz respeito ao grau de escolaridade do indivíduo. Ele se refere ao quanto esse indivíduo efetivamente domina as habilidades de leitura e escrita. Vanilda Paiva lembra que o termo foi utilizado, na década de 30, para designar a habilidade de entender as instruções escritas e, a partir delas, realizar tarefas militares. Ou seja: analfabeto funcional é aquele que até é capaz de decodificar uma informação escrita, mas não sabe o que fazer com ela.
O mundo está cheio de gente assim. Eles podem ser encontrados – é bem verdade – com bastante facilidade entre os brasileiros. E não se restringem àqueles que só frequentaram quatro anos de ensino fundamental. Mas basta uma vista d’olhos pelos noticiários para constatar que não são poucas as instituições – das políticas às financeiras – que se encontram sob a direção de pessoas incapazes de interpretar satisfatoriamente as informações que lhes são submetidas a exame.
Dá nos nervos ligar a televisão e ver a que nível chega a capacidade do indivíduo de (pegando emprestado o adágio de um amigo) falar com propriedade sobre assuntos que não domina. Isso seria até divertido, se o que esses magos modernos vaticinam não influenciasse tão profundamente no comportamento de tanta gente.
Títulos e diplomas são úteis e necessários. Mas de nada servem se não forem lastreados na habilidade, por parte de seu titular, de utilizar os conhecimentos adquiridos nos cursos de forma proveitosa. Por outro lado, esses títulos e diplomas não garantem que seu portador está, realmente, apto a agir com base nesses conhecimentos, assim como não garantem que aqueles que não os possuem são inaptos. O símbolo de nada vale se for dissociado de seu conteúdo.
No entanto, o que se vê, hoje, é uma profusão de doutores em ciências ocultas e letras apagadas: no reino da titulocracia, somos obrigados a submeter nossos neurônios às análises equivocadas de pretensos estudiosos, apenas porque eles ostentam o nome de “economistas”, “financistas”, “antropólogos”, “sociólogos” e por aí a fora.
São tantos “istas” e “ólogos” entrevistados pelos jornalistas (I rest my case), que temos que fazer um sacrifício quase sobreumano para, no meio de tanta impropriedade, peneirar opiniões relevantes, como a do embaixador Afonso Arinos de Melo Filho, para quem a crise financeira mundial atual tem data marcada para iniciar sua resolução: a troca de comando no governo dos Estados Unidos.
Faz todo o sentido a opinião de Arinos. Se a crise é de confiança nas instituições, a troca de liderança no país que, ainda hoje, mais influencia no mercado mundial se traduz em novo alento, ainda mais quando o líder atual já deixou mais do que demonstrada a sua inaptidão para governar.
Se a crise atual encontra paralelos naquela ocorrida na década de 1930, esse paralelo se estende para além dos índices Dow Jones: naquela época, eram também os republicanos que ocupavam a Casa Branca. E foi apenas a partir do momento em que eles “largaram o osso”, três anos mais tarde, que a economia respirou aliviada. A sorte – lembrou Afonso Arinos – é que apenas alguns meses, e não três anos, faltam para que o poder mude de mãos.
Ao término da entrevista, o embaixador, diplomaticamente, se esquivou de qualificar a aministração Bush, com a frase “vamos evitar adjetivos“. Muito elegante de sua parte.
Mas é fácil supor que adjetivos Arinos evitou. Algo como “desastre”, “catástrofe” ou “incompetência lapidar”.
Enfim, a crise está posta e nós, reles mortais, pouco temos a fazer em relação a ela. Quem pode já está agindo – e, no caso do presidente do Banco Central, com uma competência admirável -. Quanto a nós, resta esperar e torcer.
Torcer para que a esquizofrenia abandone o mercado; para que os investidores se lembrem que os títulos financeiros nada mais são do que representações das riquezas e, em vez correr para debaixo das camas, voltem a fazer o que fazem de melhor: apostar no gigantesco cassino que move a economia mundial. Torcer para que o nosso Presidente da República – que nunca foi economista (graças a Deus), mas que se encontra assessorado pelo financista do ano – esteja certo, e que o Brasil tenha um excelente natal. E torcer, claro, para que os jornalistas encontrem, para entrevistar, outros Afonsos Arinos. Assim, ficamos livres das opiniões inócuas dos doutores em ciências ocultas e letras apagadas.
Tenho vergonha de ser brasileira…
Mas adorei o titulo do doutor…rs… Beijo