Logo no começo dessa insanidade sistêmica a que convencionou chamar de crise financeira, minha esposa pediu que eu explicasse o que estava acontecendo. Aí eu comecei:
- Meu amor, tudo começou quando os bancos americanos financiaram muitas casas a pessoas que não tinha condições de pagar por elas. Ninguém seria estúpido o suficiente para tomar todas essas casas de uma só vez; e os bancos ficaram com um monte de papel na mão, sem ter o que fazer.
Pois bem, eu estava errado. Ontem, vi uma reportagem que dava conta de que os banqueiros americanos foram estúpidos o suficiente para executar as hipotecas e tomar as casas. Mais de oitocentas mil delas. Nenhum deles se preocupou em analisar os impactos de se desapropriar, em menos de meia década, o equivalente a uma cidade de médio porte. Tampouco nenhum dos brilhantes estrategistas teve a luminosa idéia de se perguntar o quanto custaria aos cofres da instituição manter tanta casa fechada até que fosse vendida.
Mas a tolice generalizada não parou por aí. Quando se deram conta de que era mais caro ficar com as casas do que amargar o calote dos clientes, os gênios da maior economia do mundo passaram a vendê-las a qualquer preço – nos casos mais extremos, a um dólar. E, com isso, depois de despejar mais de oitocentas mil famílias, jogaram pelo ralo alguns bilhões de dólares.
Não é à toa que o mundo anda em polvorosa; que a confiança no sistema financeiro foi para o esgoto. Ninguém poderia imaginar que, controlando o dinheiro do planeta, havia gente capaz de tão grande sandice. E, agora, que se sabe, fica difícil confiar em um sistema que abriga, em seu seio, mentecaptos que, por um motivo ou por outro, conseguiram chegar aonde nenhum boçal jamais esteve antes.