Foi com alguma tristeza e nenhum espanto que recebi a notícia: Michael Jackson faleceu. À minha frente, o canal de notícias repete à exaustão cenas dos últimos anos de sua vida, intercalando-as, esporadicamente, com flashes ao vivo do hospital onde ele foi internado, já em coma. Ao fundo, os repórteres se esforçam por esticar o assunto, recorrendo a entrevistas por telefone ou transmissões – apenas de áudio – dos correspondentes internacionais.
Michael não foi um homem à frente do seu tempo. Um fenômeno? Sem dúvida. Competente? Ao extremo.
Filho de família modesta, desde cedo seguiu o lema imposto por seu pai: seja perfeito. Destacou-se ainda quando criança, ofuscando, sem grandes dificuldades, o brilho dos irmãos. Posteriormente, em carreira-solo, tornou-se um sucesso inquestionável e incomparável. Foi perfeito.
Ao longo de sua trajetória, perdeu-se em todas aquelas perplexidades que acometem – em maior ou menor grau -todos os que procuram corresponder às expectativas da sociedade Acertou muito, errou muito. Transfigurou-se e desfigurou-se, no afã de provar algo a alguém, sem ter certeza de o que ele próprio buscava. Lutou, acima de suas próprias forças, para corresponder ao que dele se esperava. E nunca percebeu que, por maior que fosse seu esforço, nunca atingiria seu objetivo. E também nisso foi perfeito.
Morreu de infarto, tentando ainda uma vez se superar, sem perceber que, não importa o que fizesse, nunca seria o que dele se espera.
Michael Jackson foi o perfeito retrato do seu tempo. Do nosso tempo.