Sofrimento e regozijo são faces da mesma moeda. Depende de cada um decidir como vai enxergar os fatos.
Levantei da cama, no dia 24, disposto a mudar minha atitude. Olhei para o lado e vi aquela mulher maravilhosa a quem orgulhosamente chamo de esposa. Saí do quarto e passei pelo das meninas – duas bonequinhas que ainda sonham com um mundo cor de rosa. Sorri, discretamente, envaidecido.
De passagem pelo escritório, liguei o televisor. Entrando no banheiro, abri o chuveiro. E minha lânguida sensação de “tudo bem” começou a desmoronar.
Morreu um político; o outro está na UTI. Trocentas pessoas estão desabrigadas no Sei-lá-o-que-quistão. Terremotos ali; avisos de tsunami lá; neve acolá; estiagem mais adiante. Rebeldes xiitas e sunitas explodindo bombas em um canto qualquer da Terra redonda; budistas revoltados com o mais novo inseticida a ameaçar as sagradas baratas paralizam estradas; ativistas dos direitos humanos reivindicam a cadeira elétrica para sei-lá-quem. E meu espírito de natal entrou em franca agonia.
Duas horas – e um zilhão de tragédias – depois, minha filha mais velha e a respectiva mãe chegaram à minha casa para a confraternização natalina. Televisão desligada, as tragédias alheias me deram uma breve e alentadora trégua. Voltei a sorrir, vendo minhas filhas brincarem juntas e as mães, mais ocupadas em desfrutar o momento do que em repisar anacrônicas e ultrapassadas diferenças, conversando bolacha e rindo de meu pileque.
Terminado o almoço, as irmãs se separaram, na quase-certeza de que novamente se encontrarão em alguns dias. Voltei para o escritório e liguei novamente o televisor. Um documentário relembrava a vida, obra e morte de um depressivo crônico que, uma década antes, despejara sobre a sociedade suas próprias angústias na forma de músicas tão deprimentes quanto o autor – e que, por isso mesmo, é enxergado como ídolo moderno.
Desliguei novamente o aparelho e, como convinha, parti para o jantar com a família da esposa. Tudo muito bom, tudo muito bem, até que, antes da ceia, o pastor – patriarca da família – proferiu as reflexões natalinas. E como convém em um mundo politicamente correto, lembrou a todos que somos privilegiados por estar ali, diante daquela mesa farta, enquanto tantos não têm o que comer; celebrando o nascimento do Cristo enquanto tantos pranteiam seus mortos.
Ergui meus olhos aos céus. Meu regozijo se esvaíra completamente. Minha celebração se convertera na tão ensejada e difundida melancolia que acorre aos que não ousam enxergar a vida por outro prisma.
Me senti indigno de estar ali, comendo e bebendo, enquanto tantos outros nada tinham para a ceia. Me senti mal por ter orgulho de minha família, enquanto tantos ao redor do planeta não têm com quem contar. Me senti culpado por estar vivo enquanto há tantos morrendo. Me senti como a sociedade espera que me sinta: um desgraçado mesquinho que ousa sorrir enquanto tantos choram.
Foi aí que lá de dentro, entre tantos gemidos de agonia, me lembrei do motivo daquele dia. E do fundo da memória brotou a voz de quem, em tese, deveria estar sendo celebrado: “eu vim para que tenhais vida e vida em abundância”.
Só então consegui, realmente, celebrar o natal.
Que me perdoem os que sofrem – até porque, não raro, sou um deles. Mas prefiro lembrar de um pequeno texto bíblico que parece escapar aos olhos de muitos: há tempo de sorrir e tempo de prantear. O segundo já conhecemos muito bem. Está na hora de voltarmos a nos familiarizar com o primeiro.
Então, FELIZ natal!
Muito bom. Vamos celebrar porque a vida é uma só, e foi dada como um presente para a gente viver.