O mais forte candidato ao nosso prêmio FEBEAFÍ é o conceito de agir comunicativo.
Habermas (provavelmente depois de 40 dias de jejum e uma epifania) descobriu a nova pedra filosofal: a ação comunicativa.
Funciona assim: um grupo de pessoas (atores) reunidas começa a conversar. Dessa conversa, surge um raciocínio coletivo, uma razão que transcende os indivíduos. As forças ilocucionárias dos atos de fala (o equivalente aos orixás da umbanda e ao Espírito Santo dos pentecostais) se encarregam de fazer brotar, desse blábláblá o consenso (uma epifania coletiva).
É claro que as coisas não são feitas de qualquer jeito. Há regras. São elas: 1. o indivíduo precisa estar disposto a falar; 2. o indivíduo precisa estar disposto a falar sinceramente; 3. o indivíduo precisa pressupor que está sendo entendido por seus interlocutores; 4. o indivíduo precisa pressupor que seus interlocutores estão falando sinceramente; 5. o indivíduo precisa estar disposto a abrir mão de suas convicções em favor de um argumento melhor do que o seu; 6. o indivíduo precisa pressupor que os interlocutores estão dispostos a abrir mão de suas convicções em favor de um argumento melhor do que o deles; 7. o indivíduo precisa agir buscando o entendimento; 8. o indivíduo precisa pressupor que seus interlocutores agem buscando o entendimento.
O agir comunicativo, em Habermas, se contrapõe ao agir estratégico. Evidentemente, toda a sua idealização (leia-se: delírio) se contrapõe à objetividade.
Antes que se diga que estou sendo habermasiano (ou seja, distorcendo o que os outros disseram), deixe-me demonstrar como cheguei ao sumário acima.
Eis um trecho de Direito e democracia: entre facticidade e validade:
Os participantes da interação têm que atribuir-se reciprocamente a consciência de seus atos, ou seja, têm que supor que eles são capazes de orientar seu agir por pretensões de validade. [HABERMAS, 2003a: 38]
Tradução: os atores têm que pressupor que seus interlocutores são capazes de agir de acordo com o que acham certo.
Esse é um dos casos que a que Popper chamaria de trivial e errado.
As pessoas sempre agem de acordo com o que acham certo. Se você apontar uma arma para a cabeça de um indivíduo e lhe disser “ou você estrangula a sua namorada agora ou eu estouro seus miolos”, é bom que a dita cuja esteja bem longe do alcance das mãos do sujeito. Não que ele acredite ser certo estrangular a namorada (se bem que muitos desejariam fazê-lo). Mas ele - ao menos na maior parte das situações – vai preferir sacrificar o pescoço alheio a abrir mão de seus neurônios. E a lei o apoiará em sua decisão. Por outro lado, pode ser que ele acredite piamente que o que deve fazer é entregar a própria vida por amor; ou que nada justifica que ele pratique violência; ou que a mariposa que pousou no pescoço da namorada é uma reencarnação do Buda e, por isso, é melhor morrer do que atrapalhar seu repouso ou esmagá-la no estrangulamento. Nesse caso, nada que você diga ou faça vai convencer o infeliz a estrangular a namorada. Porque, no final das contas, ele vai agir de acordo com o que acha certo. Isso é trivial.
O errado, no postulado acima, está em que o ator tem que supor que seu interlocutor fará o que acha certo. O ator não tem que pressupor nada. O interlocutor pode estar bêbado ou drogado; ou ter um tumor no lóbulo frontal, que distorce seu raciocínio; ou – o pior – pode dizer a você que acha certa uma coisa, quando sua convicção é outra.
Supor que o interlocutor é capaz de agir com base nas próprias convicções é a quintessência da ingenuidade. O ator precisa se assegurar de que o interlocutor é capaz de agir com base nas próprias convicções. Ou seja: precisa se assegurar de que o interlocutor não tem seu raciocínio embotado por enfermidades, por substâncias químicas ou por quaisquer outros fatores que o impeçam de interpretar apropriadamente as próprias convicções.
Trivial? Pois é.