A construção ideológica que Jürgen Habermas utiliza para fundamentar seus devaneios sobre o Estado democrático de direito se inicia por um conceito bastante familiar aos estudantes de filosofia: o mundo da vida.
Ferrater Mora [MORA, 2001: 1696] explica que o conceito de mundo da vida (ou mundo vital, do alemão, lebenswelt), foi usada em especial por Husserl e se refere a um conjunto de valores pressuposto em Kant, conjunto esse formado por postulados que são aceitos sem qualquer crítica ou tematização. É o popular é assim porque é assim. Esses postulados, aceitos a priori, são incontestes e vistos, por quem os adota, como incontestáveis.
Se você não é fluente em filosofês, talvez seja melhor traduzir: sabe aquela estória de que misturar manga com leite dá indigestão? E aquela conversa de que, se você deixar o chinelo com a sola para cima a sua mãe vai morrer? E aquela afirmação categórica de que, se você atender seu celular em um posto de gasolina, vai tudo pelos ares? Pois é. Essas – e muitas outras – são certezas do mundo da vida: a gente ouve e acredita, sem parar pra pensar se há nelas qualquer vestígio de verdade.
E lá vem mais uma constatação do óbvio:
Durante o agir comunicativo, o mundo da vida nos envolve no modo de uma certeza imediata, a partir do qual nós vivemos e falamos diretamente. Essa presença do pano de fundo do agir comunicativo, latente e imperceptível, que tudo perpassa, pode ser descrita como uma forma condensada e, mesmo assim, deficiente, de saber e de poder. De um lado, nós nos servimos inadvertidamente deste saber, isto é, sem saber que nós o possuímos reflexivamente. [HABERMAS, 2003a: 41]
Traduzindo: nós nos entendemos porque acreditamos nas mesmas coisas e, quando falamos, nem nos damos conta de que aquilo em que acreditamos pode estar – e muitas vezes está – errado. Mas, como acreditamos todos que esteja certo, não discutimos por causa disso.
Pausa. Quem foi que disse que nós aprendemos as coisas por osmose? De onde saiu essa idéia estapafúrdia de que o que sabemos saiu de algum lugar místico e nos foi transmitido por forças sobrenaturais? Tudo bem, os místicos acreditam ter essa capacidade. Os religiosos, também. Mas Habermas jura de pé junto que não é místico nem religioso…
Aprendemos por mimetismo; por tentativa-e-erro; por doutrinamento. Mas não aprendemos por osmose. E, se temos tanta certeza de alguma coisa, é porque um (ou mais) de três eventos ocorreu: a) imitamos alguém que acreditamos estar agindo corretamente; b) tentamos uma conduta e dela obtivemos resultado satisfatório; c) fomos doutrinados por alguém que, acreditamos, tem autoridade para doutrinar. E, se, em um grupo, todos acreditam nas mesmas coisas, é porque todos os indivíduos daquele grupo passaram, ao longo de sua vida, pelos mesmos processos em relação àqueles temas.
E o FEBEAFÍ habermasiano prossegue, afirmando que as certezas do mundo da vida perdem a sua função estabilizadora das expectativas de comportamento ao migrar do pano de fundo do agir comunicativo para o palco das tematizações. É uma forma complicada de dizer que, quando as pessoas começam a discutir sobre aquilo de que tinham certeza, esses postulados, que se transformam de certezas em temas de debate, não podem mais servir de base para um diálogo. Não posso dizer se isso se insere naquilo que Popper classifica como trivial ou como errado. Mas, como o propósito, aqui, é desconstruir a desconstrução, vamos lá.
Se uma certeza do mundo da vida é convertida em tema, deixa de ser certeza do mundo da vida. Porque certeza do mundo da vida é um postulado que foi aceito sem crítica. Isso é trivial.
Se você passa a discutir sobre aquilo que tinha por certo, é porque não tem mais certeza de que aquilo é certo. Logo, não pode afirmar nada com base naquilo, até que tenha certeza de que o que achava certo é certo mesmo. Redundante? Vá reclamar com Habermas.
Mas, a partir do momento em que você chega a alguma conclusão sobre se aquilo que achava certo é certo ou errado, seu postulado pode retornar, não mais ao mundo da vida, mas ao pano de fundo do debate. Ou seja: as pessoas podem voltar a se entender, não mais porque acreditam nas mesmas coisas sem criticá-las, mas porque as criticaram e chegaram a um consenso ou a um acordo. Tá. Isso também é trivial. Você já sabe pra quem escrever.
O importante, aqui, é ressaltar que o “curioso nivelamento da tensão entre facticidade” [HABERMAS, 2003a: 41] não tem nada de curioso, assim também como não tem nada de nivelamento de tensão. Os interlocutores se entenderam. Simples assim.
Também é uma grande besteira afirmar que essa dinâmica de comunicação fundamentada em certezas do mundo da vida se dá apenas em pequenos grupos ou em relações interpessoais rudimentares. Ela pode ser verificada em todas as dimensões do relacionamento humano. Do presidente dos Estados Unidos ao padeiro da esquina, do papa ao esquimó, do cacique indígena ao homem-bomba, da líder feminista à mulher do traficante, todos nós agimos e nos comunicamos com base em certos pressupostos que tomamos por verdadeiros sem qualquer crítica. Os resultados e reflexos de nossas ações, assim como as dimensões desses resultados e reflexos, dependerão de diversos fatores, como os grupos sociais em que nos inserimos e o papel que desempenhamos em cada um desses grupos.