Habermas enxerga, nas sociedades organizadas em estruturas mais simples, duas formas de estabilização das expectativas de comportamento: os tabus e a autoridade sagrada. As sociedades tradicionais (a que ele denomina sociedades tribais protegidas por tabus) teriam o comportamento controlado através de mitos e ritos, cabendo à própria tradição o papel de fornecer a base ideológica que provê legitimidade à sanção social do comportamento desviante [HABERMAS, 2003a: 42].
Traduzindo: as pessoas deixam de fazer alguma coisa porque aquilo é errado; e aquilo é errado porque lhes foi ensinado que é errado. Ponto. Por outro lado, quem insistir em agir de outro modo será punido pelo próprio grupo social, seja por uma reprimenda, seja por uma pecha, seja pela própria eliminação do transgressor.
Nesse tipo de organização social, a proteção das normas de conduta se daria, entende Habermas, pela proibição de se tematizarem as próprias normas; de as tornar objeto de questionamento e de discussão.
Outro mecanismo de controle social, defende Habermas, seria a autoridade sagrada: um ente a partir do qual emanam, simultaneamente, a fonte de interpretações, a norma de conduta e a força coercitiva destinada a punir os comportamentos desviantes [HABERMAS, 2003a: 43]. Traduzindo: a deidade, ao mesmo tempo que determina como o indivíduo deve se portar, informa por que ele deve se portar daquele jeito e provê o castigo pela desobediência. A proteção das normas de conduta, no caso, se daria pela impossibilidade de reação contra a deidade, já que ela se encontra inalcançável por mãos humanas e seus agentes não são mais do que operadores do direito divino.
O cenário atual, propõe Habermas [2003a: 45] é de uma sociedade profanizada onde as ordens normativas têm que ser mantidas sem garantias meta-sociais. E aqui o FEBEAFÍ começa de novo.
Com sua retórica (questionavelmente) elaborada, Habermas nos persuade a enxergar a sociedade em dois tempos: no primeiro, os indivíduos agem de determinado modo porque assim são constrangidos por forças que se encontram além ou acima do alcance do grupo social. Os tabus, em “sociedades arcaicas” e os deuses, em sociedades teocráticas, são categorias intangíveis, tais quais as certezas do mundo da vida, e, por isso mesmo, são capazes de manter os indivíduos de uma sociedade pouco numerosa agindo de modo relativamente coordenado. Com a possibilidade de tematização dos tabus e a dissolução da autoridade sagrada, a sociedade não conta com nada além dela mesma para coordenar as ações de seus membros.
Acontece que Habermas tenta diagnosticar os grupos sociais em função da legitimação para o exercício do poder e falha retumbantemente em seu diagnóstico. Escapa à percepção do professor o fato de que os mecanismos de controle social não se dissolveram; apenas se reorganizaram. Os tabus continuam coexistindo com as certezas do mundo da vida e com a autoridade sagrada. E tudo isso se dá no seio da mesma sociedade.
Habermas olhou para os sintomas e falhou no diagnóstico. A sociedade se tornou mais complexa, sim. Mas isso não implicou na supressão das antigas bases de legitimação do exercício do poder. O que aconteceu, de fato, foi que essas estruturas que ele chama de arcaicas se mostraram insuficientes e deficientes no propósito de construir uma base estável sobre a qual pudessem coexistir pacificamente os grupos sociais estruturados ao longo dos milênios. A sociedade do século XXI não é uma fusão, mas uma aglutinação das estruturas sociais anteriores; e esse fenômeno ocorreu, não por uma evolução dos mecanismos sociais, mas pela aproximação – cada vez mais intensa e inevitável - dos agrupamentos sociais que, outrora, mantinham-se dispersos. E essa necessidade de garantir a coexistência pacífica de estruturas de poder muitas vezes conflitantes é algo de que as formas políticas mais antigas não são capazes de dar conta.
A autoridade sagrada não se esvaneceu. Apenas mudou sua posição no palco do poder: mudou do centro para a periferia. Mas ela continua lá, ativa. Ignorar isso é correr o risco de ter seus prédios derrubados por aviões de passageiros e eleger, para vice-presidentes da maior potência nuclear do planeta, religiosos ultra-radicais que pretendem preparar o mundo para o juízo final.