Quem lê Habermas encontra, normalmente, grande dificuldade em compreendê-lo. A maioria atribui essa dificuldade à pouca habilidade pessoal em decifrar as construções gramaticais extremamente complexas e o vocabulário rebuscado. Outros desistem de procurar qualquer explicação. Mas há aqueles que, após muito esforço, percebem que não entendem Habermas porque o que ele diz não faz sentido, mesmo.
Na base de seu castelo de cartas conceitual se encontra o conceito de razão comunicativa. É uma razão que se produz em algum lugar, por algumas pessoas, de algum modo. Não é fruto de um exercício individual, mas o produto do simples fato de os atores comunicarem-se. Não é – segundo o próprio Habermas – uma fonte de normas de ação. Também não é informativa, ou seja, não é capaz de fornecer qualquer resposta concreta a problemas práticos. [HABERMAS, 2003a: 20]. Resumindo: é uma coisa que o próprio Habermas não sabe definir muito bem, não sabe dizer para que serve ou mesmo se serve para alguma coisa.
Esse é o problema de se tentar descrever uma ficção: se o autor não for muito cuidadoso, fica bastante evidente que não é mais do que fantasia. E Jünger Habermas não é o que se pode chamar de um exímio escritor de ficção.
A idéia habermasiana de uma razão que transcende o indivíduo deixa de levar em consideração o fato de que raciocinar é, inexoravelmente, uma atividade individual. Do mesmo modo, a sua suposição de que há, no ato de fala, uma força que extrapola o próprio ato é uma tentativa de esoterismo ateísta. Essa “força”, identificada como sendo o conteúdo ilocucionário dos atos de fala, seria, na opinião do místico (desculpe: filósofo) alemão, capaz de direcionar os atores para um consenso e produzir um resultado racional que transcende a própria racionalidade.
Outra coisa importante a respeito da tal razão comunicativa: sua descrição não é fruto de teorias fundadas em observações empíricas, na dedução lógica ou na refutação de outras teorias. Ela é um conjunto de idealidades, ou seja, de idealizações. Algo que, na minha infância, recebia nomes como devaneio e fantasia. Quando eu era adolescente, ouvia chamarem isso de viagem. Hoje, recebe o apelido de filosofia.
E durma-se com um barulho desses.