Sou um homem da periferia. Nasci na periferia de uma grande cidade, o Rio de Janeiro. Nela, fui criado. E, desde que me lembro por gente, é nela que vivo. Não que não tenha, em um momento ou outro, me encontrado à frente de algum grupo, na incômoda posição de líder ou na estafante condição de centro das atenções. Isso acontece. Mas, mesmo quando os holofotes me cercaram – felizmente, poucos o suficiente para não me emprestar mais atenção do que mereço e por tão pouco tempo que não chegaram a ofuscar meus olhos para o fato de que não é meu destino lhes servir de alvo -, foi em algum tipo de periferia que me encontraram.
Ser da periferia tem suas vantagens.
A partir dela, é possível observar as dinâmicas de poder sem necessariamente se comprometer com elas, a ponto de servir de alimento a seu insaciável apetite. Sim, pois, se o poder corrompe, a dinâmica do poder devora. E sua faina avassaladora ataca o bom senso das pessoas bem antes de lhes consumir a ética.
Isso não significa que o homem da periferia seja destituído de qualquer poder ou seja incapaz de lidar com ele. O poder é necessário a todo ser humano. Exercê-lo, em alguma medida, é inerente à nossa natureza. Mas o autêntico homem da periferia se sabe agente do poder e não fonte dele. Percebe, com clareza, que o poder lhe é só um instrumento e não um objetivo; que o exercício do poder é algo que lhe compete, mas que não o define. Por isso mesmo, não o busca a qualquer preço e acima de qualquer outra coisa. E quando com ele se depara, quando o encontra em suas mãos, trata-o com respeito e dignidade.
Sou um homem da periferia. Já vi muita gente lutar pelo poder; buscá-lo a qualquer custo; exercê-lo irresponsavelmente. Também já vi homens e mulheres lidar com o poder com a elegância de quem monta um cavalo de raça: conduzindo-o, subjugando-o, sem, contudo, perder por ele o respeito. porque o poder não se exercita apenas nos grandes centros de tomada de decisão. Ele não se restringe aos palácios, aos núcleos políticos, aos escritórios dos empresários ou aos púlpitos das igrejas. O poder se manifesta onde quer que o indivíduo seja conclamado a agir de modo a influenciar, direta ou indiretamente, qualquer um que não seja ele mesmo. E o modo como o indivíduo opera o poder não diverge muito, seja esse indivíduo um chefe de Estado ou de governo, seja ele uma dona-de-casa a impor autoridade sobre seus filhos.
Me sinto confortável na periferia. A partir dela, posso interagir com o poder sem, por isso, sucumbir a ele. Ser o centro das atenções não me é a causa última; estar sob os holofotes me é tão importante quanto operá-los; estar com a razão, para mim, só faz algum sentido se resultar em algo mais do que inflar meu próprio ego.
Sou um homem da periferia. E, como tal, me contento com pouco. Não preciso que concordem comigo; não faço questão de que me apóiem; não tenho a pretensão de ser admirado. Mas, como autêntico homem da periferia, de uma coisa não abro mão: do supremo, sublime e sagrado direito de ser ouvido.
Bem que dizem que tudo é questão de ponto de vista.
Sou punk da periferia…rs